Que ironia (Destaque Literário no 28º Concurso Internacional de Poesias, Contos e Crônicas da Alpas 21)

 
O que aconteceria se, de um momento para o outro, a morte viesse a saber que iria morrer?
Como? Ah, compreendo. Acham que falei rápido demais e, por isso, não ouviram bem a pergunta. Não tem problema, eu explico melhor: O personagem que ao longo dos séculos vem sendo chamado ora por apelidos, tal como o Ceifador, imagem associada ao trigo e que na Bíblia simboliza a vida, ora por nomes próprios, como, por exemplo, Thanatos, um deus da mitologia grega, ela, a própria morte, visualizou o dia em que iria morrer.
Antes de seguir com esta narração, acho interessante abrir um pequeno parêntese, e isso para não dizerem que o assunto só beirará ao fúnebre: A morte prefere ser identificada com aquele deus grego, que por vezes representam como um homem belo, alado, de olhos e cabelos prateados, o que por certo faz muito bem ao seu ego, a ser lembrada como um ser sinistro, de aspecto esquelético, vestida com uma manta negra com capuz e portando uma enorme e afiada foice; se bem que isso não muda uma vírgula da sua realidade.
É bem verdade que essa preferência muito prejudicou a morte num dado momento de sua “carreira”. Oh, tola vaidade!… Não soubesse Sísifo dessa sua imperfeição, não fosse ele mais astuto que o próprio Ulisses, e ela não teria sido aprisionada.
De outra parte, talvez alguém estivesse louco para perguntar:
– Mas, como é que ela soube que iria morrer? Alguém contou?
Bem, vou tentar explicar: A morte sempre sabe o momento exato em que cada criatura viva irá partir para a Terra dos Pés Juntos. Ora, em sua caminhada evolutiva – pasmem, mas ela também evolui –, essa sua habilidade natural alcançou um ponto tal de excelência, que ela, sem que ninguém dissesse, passou a conhecer o termo final da própria existência. Ele simplesmente se apresentou à sua consciência, como se fora só mais um fim entre os imemoriáveis fins a que dera causa.
É claro que só fiquei sabendo dessa novidade porque ela, num momento de fragilidade, acabou revelando-a ao amigo Caronte – o barqueiro mitológico que, por um óbolo, faz a travessia das almas dos recém-mortos sobre os rios Estige e Aqueronte –, que, por ser tão fofoqueiro quanto a beata Sr.ª Josefa da Graça (de As pupilas do senhor reitor), espalhou-a aos quatro ventos com a presteza dos furacões.
Mas, daí, outros levantariam a seguinte interrogação:
– Tudo bem, a morte vai morrer. Mas, e nós, como ficaremos? O nosso envelhecimento parará num determinado momento e viveremos com o mesmo vigor para todo o sempre, ou chegará um dia em que a nossa vitalidade chegará a zero, e isso nos imporá uma irremediável e eterna inação? Afinal, isto será a realização de um velho sonho da Humanidade, a tão perseguida imortalidade, ou, ao contrário, será, sim, um verdadeiro suplício, haja vista chegarmos a um ponto em que uma estátua de mármore terá mais agilidade do que um atleta colecionador de medalhas?
Boas perguntas. No entanto,… – A morte se interpunha, sedenta por falar:
– Lamento informar, mas nem eu sei essas respostas, uma vez que o tempo decorrido entre o meu aprisionamento e a intervenção do Deus do Mundo Inferior foi tão curto que nada mudou entre os mortais. Portanto, não faço a menor ideia do que vai acontecer a vocês. E para dizer a verdade, não estou nem um pouquinho preocupado com a sorte de cada um.
E como notasse uma certa indignação na plateia, tornava a falar:
– Como é? Agora me acham mal-educado?… Ora, ponham-se no meu lugar! O que fariam se, de uma hora para outra, deixassem a cômoda posição de caçador e passassem ao desagradável status de caça? Será que seriam polidos até o último suspiro ou estariam como eu, descabelando-me sem parar, e pouco me lixando para a opinião pública?
Passados alguns segundos, e a morte se arrependia da falta de tato:
– Tudo bem, tudo bem… Acho que deixei a aflição falar mais alto. Peço desculpas. Vou tentar me controlar. Até porque, se espero sugestões sobre o que fazer nestes dias que me restam, não será com falta de modos que angariarei simpatias.
Mas como sua baixa autoestima não obtivesse aplausos, revoltava-se e abandonava de novo os modos:
– Mas que impertinência! Então duvidam que eu mereça quem me sugira uma ideia neste momento inglório? Ora, só porque fui e sou o responsável pela limpeza geral, acham que todos quereriam distância da minha pessoa, como se eu fosse um repugnante urubu dançando em meio à carniça?! Pois eu gostaria de saber o que seria da higiene do mundo se não houvesse aves de rapina pululando por aí. Ah! como eu gostaria!…
Passados outros segundos de um silêncio sepulcral, e retorna a morte com um pouco de vergonha:
– Peço desculpas novamente por minha intemperança. É que, se me perdoam o trocadilho, esta nova situação está me matando. – Houve um e outro risos, mas nada que se pudessem dizer estimulantes.
– Bem, aguardo propostas. Quem será o primeiro a se manifestar?
Como o silêncio permanecia, a morte foi-se melindrando cada vez mais. Até que resolveu entregar os pontos:
– Está certo. Sei quando não estou agradando. Sendo assim, o melhor que tenho a fazer é sair por aí e me entregar aos devaneios. Por certo algo de diferente aparecerá, e eu terminarei os meus dias sem resvalar na vala comum dos moribundos. É o que farei.
E lá se foi a morte, pé ante pé, sem rumo e de cabeça baixa.
Mas, e agora? Que atitude tomaria a morte? Como passaria os últimos instantes da sua vivência? Como adivinhar seus pensamentos, seus sentimentos?! Sim, porque uma coisa é tentar sondar as reflexões de uma pessoa que foi desenganada, fato tanto mais fácil quanto por mais tempo com ela se conviveu. Outra, bem diferente, é sondar os meandros daquela que vem fazendo sempre a mesma coisa desde o início dos tempos, e, diga-se de passagem, sempre atuando com absolutos esmero e eficácia.
Ora, teria ela algum arrependimento ou só levaria lembranças agradáveis do seu ofício? Sairia desta vida com aquela sensação de vazio ou com o senso do dever cumprido? Alguém viria chorar sobre o seu túmulo ou nem mesmo as antigas carpideiras dela se compadeceriam?
Quantas questões poderiam ser levantadas se fôssemos meditar sobre esse fato que, no mínimo, pode ser classificado como inimaginável! Pois àquelas e a muitas outras conjecturas a morte se entregou. E como não chegasse a nenhuma resposta que a satisfizesse, deixava-se cair na sarjeta, combalida e sem perspectivas.
Por um bom tempo ficou a morte estirada, atrapalhando o curso da água e represando os dejetos por ela carreados.
Em um determinado momento, porém, um fato devolveu-a à realidade:
– O quê?!… – Era um cão que lambia sua face.
– Ah, só mesmo um animal, puro por natureza, é que se apiedaria de mim nesta antevéspera do desterro.
E ao acariciar o pescoço do cachorro, a morte acabou descobrindo uma coleira por entre os bastos pelos.
– Então você tem dono?…
Procurando a plaqueta que o revelaria, deparou-se com um continente cilíndrico, em que uma das extremidades era fechada a rosca. A curiosidade falou mais alto e a morte passou a girar a tampinha. Com certa dificuldade, retirou de dentro um pedaço de papel muito bem enrolado.
– Ora, ora… O que temos aqui?…
Era uma carta; e a morte, a destinatária:
 
Caríssimo companheiro de memoráveis cavalgadas.
Estávamos, nós três, a fazer um piquenique na margem mais aprazível do Estige, quando Caronte aportou ao nosso lado, e, esbaforido, nos reportou a novidade. Nem precisaríamos dizer que a notícia já correu os quatro cantos do Mundo dos Mortos, e, espero que não se zangue, fez, aqui, bem mais de um simpatizante. Aliás, pasme! um dos danados até teve forças para repetir o velho provérbio “Quem ri por último, ri melhor”. Pode uma coisa dessas?!
Quem diria… Logo você, “o menor de todos os males”, no dizer de Bacon, “o único caso em que é permitido a um homem passar diante duma mulher”, nas palavras de Alexandre Dumas, filho, ou, parafraseando Gonçalves Dias, a única coisa que tem valor, logo você acabou, por assim dizer, mordendo a própria língua! É, já vimos de tudo nessa vida!
E já que o momento é de despedidas, permita-nos desentalar de vez esta espinha na garganta, e que vem nos molestando desde o primeiro tropel do nosso temível quarteto:
Que gosto tem ser sempre retratado na retaguarda, quando o assunto somos nós? Ou, dizendo de outra forma, como é ser visto pelos artistas como um simples apêndice dos Cavaleiros do Apocalipse? Sim, porque primeiro chegamos nós, com nossas preferências, performances e excentricidades. E só depois vem você, a lanterninha, a quem nada mais resta senão recolher o monturo do nosso festim.
Ah! não sabe como isso fez bem a nós três!
Até nunca mais.
peste, guerra, fome
 
A morte lia e relia a mensagem. E a cada nova leitura, mais estarrecida ficava. Não podia acreditar, nem mesmo conceber, que seus amigos mais íntimos ousassem traí-la, e por meio de tamanho desprezo! No entanto, os cheiros da deslealdade e do escárnio, que deles tão bem conhecia, ainda remanesciam por entre as linhas, e não deixavam dúvidas sobre a veracidade do conteúdo, bem como sobre a autenticidade das assinaturas.
E amassava o papelzinho; e cerrava os olhos; e tremia de desespero e de ódio.
Pela primeira vez desde o seu surgimento, a morte sentia-se como se lhe tivessem tirado o chão, precipitando-se mais e mais em um buraco escuro e sem volta. E como jamais padecesse do fel da traição ou do azedume do desdém, ela não tinha sequer parâmetros para pensar em como reagir, o que impunha uma sensação de total impotência e absoluta aflição.
A pouco e pouco a morte foi recobrando o prumo. E a primeira vontade que teve foi a de extravasar a sua raiva, escorraçando o pobre do animal. Essa atitude, porém, já tinha sido prevista pelo trio apocalíptico, que, como derradeira forma de afronta, bem treinara o seu mensageiro para que sumisse tão logo o bilhete fosse retirado.
Porque captasse a real intenção daquela mensagem, não houve, para a morte, adjetivos suficientes com que pudesse qualificar os seus antigos companheiros, e isso tanto mais a torturava quanto mais ultrajada se sentia.
Malditos! – bradou a morte, com todo o furor do seu ser.
Esse desabafo, contudo, pouco ou nada amenizou. Seria necessário bem mais que um paliativo para que toda sua ira fosse escoada, para que o seu orgulho ferido se visse ressarcido.
Mas o que poderia fazer uma simples moribunda contra a peste, a guerra e a fome juntas? A resposta não vinha. E os lábios se cerraram, a fronte se abaixou, e o corpo se prostrou diante do desalento.
De repente, uma voz se fez ouvir:
– O tempo urge!…
Não se pode afirmar que a morte ouvira a voz da consciência, e que esta a relembrava sobre o pouco tempo que ainda lhe restava. Viesse de si ou de outrem, o fato é que se o tempo voava, era preciso que fosse muito bem aproveitado. Foi aí que ela se lembrou da última ceifada que dera – um bilionário russo do ramo petrolífero, jovem e muito sonhador, e que acabara de ganhar, numa das roletas do cassino de Monte Carlo, uma fortuna impensável, mas que, “pobre azarado”, não teve tempo de usufruir sequer uma moeda.
Pois haveria lugar melhor para se aguardar o chegar do fim senão o que concentra toda a euforia, a plena diversão e o requinte do luxo?
– Pois é para lá que eu vou! – E montando em seu cavalo baio, partiu sem demora rumo ao principado.
Ao avistar a marina, com seus imensos iates e tantos outros mimos, a morte começou a se perceber com uma atenção nunca antes exercitada. Ora, pensou consigo, quando alguém está prestes a morrer, é natural que passe a reparar nas coisas que antes só passavam pelos olhos.
Mas como essa conclusão em nada serenasse o seu íntimo, só teve vontade de entrar no cassino o mais rápido possível, antes que o desânimo voltasse a lhe fazer companhia.
Antes, porém, fixou os olhos no seu fiel companheiro, chamado carinhosamente Armagedon. Nada mudara nesses últimos milênios. A mesma cor amarelo-esverdeada, o mesmo aspecto cadavérico, o mesmo odor pestilento… E comentou num tom saudosista:
– É, meu velho, você e eu corremos o mundo!… Ainda hoje me lembro de quando você era pequenino. E de quanto trabalho me deu para domá-lo! Bem mais que Bucéfalo aos melhores cavaleiros, antes que Alexandre da Macedônia o amansasse. Pois é, quantos defuntos jazeram sob suas patas, hein? Ah, bons tempos!… Tem saudade, não tem? – e acariciava o seu pescoço.
– Pois agora, o momento é de dizer adeus. Ah! não ouse chorar, pois sei que isso é impossível; nem olhos você tem! E também deixe de lambidas, que bem sei o quão aspérrima e hiperinfecciosa é a sua língua. Pois vá, galope para onde quiser, e não se esqueça de se oferecer aos carrapatos. Sei o quanto eles fazem bem ao seu sangue.
E retirava a sela; e batia em seu lombo.
Ao ver a montaria em disparada, a morte ainda se lembrou do último recado:
– E vê se arruma alguma besta por aí! Adoraria ser “avô”.
Quando entrou no cassino, a morte sentiu-se remoçada. O vaivém das pessoas, frenético, glamouroso, era pura adrenalina a estimular as suas paixões. O tilintar das moedas e das fichas ecoava em seu crânio e fazia as vezes de anfetaminas infernais. E a prodigalidade dos novos-ricos, fluida, suicida, enchia o seu peito e a fazia sorrir. Mas, sem nenhuma dúvida, o que mais a deleitava era a vibração dos que perdiam além da conta, pois isso aumentava a sua salivação e o batimento cardíaco.
A morte se pôs a andar. E admirava um, e espreitava outro… Mas para sua surpresa, todos os que ali se encontravam não poderiam ser por ela tocados. As datas de suas partidas ainda custariam a chegar. E balbuciou contrariada:
– Oh, vida…
Então, uma senhora de setenta e dois anos aparecia no salão. Caminhava apoiada em andador, arfava, tossia e se via “amarrada” a um cateter nasal, ligado a um cilindro de oxigênio portátil, e puxado por uma enfermeira hamburguesa.
– Enfim, chegou a minha vez! – E batia na madeira, arrependendo-se do que acabava de dizer.
Auscultando aquela senhora, notou não só que seu coração ia de mal a pior, como também que, se algum dia tivera pulmões, o cigarro já os tinha enterrado. Consultou novamente sua ampulheta e verificou que faltava muito pouco para que ela fosse tocada. E dela se aproximou com um sorriso todo seu.
Mas quando a sua unha de gavião estava a menos de dez centímetros daquele peito carcomido, a morte estacou. – O episódio com Sísifo voltava à sua mente. E dele apreendia a desforra perfeita…
E ela sorria, abaixava o braço, e, contemplando o resto de areia finíssima que passava do vaso superior para o inferior, deixava que aquelas duas senhoras prosseguissem.
Neste instante, a acuidade auditiva da morte, sensibilidade com que sempre se diferenciara, pôde distinguir ao longe um som familiar. E quanto mais o tropel se aproximava do cassino, mais excitada ficava, o que produzia em derredor, e à sua revelia, um fedor nauseante, típico dos momentos de maior glória.
– Ora, ora… Mas que feliz coincidência! Acho mesmo que a sorte resolveu sorrir para mim.
Em alguns instantes adentravam a peste, a guerra e a fome, cheias de si e ávidas por se divertirem à custa do maior estrago possível.
Sim, o acaso impunha um reencontro. E a morte o reverenciava.
– Um momento! – disse a fome, detendo os demais – Esse cheiro?…
– Mas que coisa, fome! Mal entramos e a primeira coisa que ouvimos é o seu ego? Espera pelo menos passarem os garçons.
– Não é nada disso! – retrucou a fome – Vocês não estão sentindo o fedor? Como se houvesse entre nós cadáveres em decomposição.
– É melhor avisarmos a gerência. – zombava a guerra – Ou, na pior das hipóteses, o serviço público de combate às zoonoses.
Mas a fome não se melindrou com as gargalhadas que se seguiram, e continuou a farejar, qual cão à procura do osso.
Não demorou muito para que encontrasse o foco das náuseas, o que lhe valeu um susto e tanto, e um tombo para trás.
– Mas que mundo pequeno!… – disse a morte, mostrando-se aos três cavaleiros – Aqui, onde o sol brilha, o dinheiro fervilha e o ganhador estribilha, logo aqui é o lugar em que se reencontra a quadrilha?
– Ao que parece, nem a certeza da própria morte mexeu com a sua verve poética.
– Tem razão, peste, versejar nunca foi o meu forte. Mas, como dizem, morrerei tentando.
– E o que a trouxe a Mônaco? – indagou a fome, depois de se levantar – Pelo que sei, alegria nunca foi a sua praia; salvo, é claro, depois que um de nós agia.
– É verdade, ser agonizante. – intrometia-se a guerra, com evidente intenção de afrontar, e de espada em punho – O cemitério é que é o seu lugar. Chispa daqui, antes que a enxotemos com toda a nossa fúria.
Como paciência tem limite, a morte se valia de sua foice e a oferecia ao combate, manejando-a com invejável destreza.
Mas antes que a guerra a ele se entregasse, a peste ainda encontrava palavras para incrementar o despeito do momento, o que, a seu ver, multiplicaria a cólera da morte e redundaria em três contra uma. Afinal, seu lema sempre foi “quanto maior o contágio, melhor”:
– Quero lembrar que escolhemos este paraíso para que pudéssemos curtir nossas merecidas férias. Ora, pergunto eu, para que desperdiçarmos tempo precioso com alguém que está com os pés na cova? Aposto que até o seu mísero pangaré o abandonou, envergonhado por saber que o seu dono será o único entre nós a sucumbir. Olhem para o esfarrapado… É mais osso do que pele; um esqueleto ambulante. Que mal este ser patético poderia nos infligir? Nenhum. Sejamos, pois, comiserativos, e tratemos de apressar a sua última viagem. Aliás, por ter sido a morte sempre um nosso simples anexo, como fizemos questão de lembrar na carta que enviamos, está mais do que na hora de receber as migalhas a que tem direito, como se fosse uma compensação por tão acessória atuação.
De fato, as três recém-chegadas perfilaram-se diante da morte e deixaram clara a intenção que as animava, por meio dos seus conhecidos símbolos. A guerra não deixou de manusear a espada com a perícia dos degoladores. A peste entesou o seu arco e mirou a testa da adversária; e a fome, que ainda se deliciava com a zombaria dramatizada pela companheira, pegou de sua balança e, mostrando-a à morte, abaixou um dos seus pratos para si, transmitindo a ideia de que a desigualdade de forças implicaria a destruição da desafeta.
Neste instante, ouviu-se por todo o salão uma crise alucinante de tosse. Era aquela mesma septuagenária que há pouco mudara a intenção da morte. Daí que esse contratempo vinha relembrá-la daquela saborosa vingança. E a reconduzia ao necessário equilíbrio.
A morte, então, jogou para o lado a sua foice – o que a todas surpreendeu –, e, sem tirar os olhos das opositoras, agachou-se e pôs no chão a sua ampulheta. Depois, reergueu-se, e, com a calma dos vencedores, começou a falar:
– Caríssimos ex-colegas, vou contar uma história bem interessante. Creio que não se negariam a conceder esta última vontade a esta patética criatura, a este inofensivo adversário, como bem insinuaram.
Os três cavaleiros se entreolharam, mantiveram-se em silêncio, mas permaneceram de sobreaviso. Bem conheciam as muitas artimanhas da morte, e, por isso mesmo, sabiam que de suas mangas sempre haveria cartas a serem retiradas. Mas como a atitude que ela tomara deixou-os um tanto perplexos, outra reação não tiveram senão a de se conservarem de olhos e ouvidos bem abertos.
– Pois bem, uma vez obtida a magnânima licença, passo à narrativa, a mais inusitada que proferi desde que me conheço por gente, quero dizer, por morte.
Interessante mencionar que, mesmo estando o salão abarrotado de frequentadores e de funcionários, era incrível como a peste, a guerra e a fome só conseguiam ouvir a voz melíflua da morte. Não fosse ela velha conhecida desse trio, e se diria que a serpente conseguia hipnotizar três pobres lebres.
– Não sei se vocês se lembram daquele desafortunado do Sísifo?
A guerra recordou-se dele com facilidade, pois também sofrera as consequências do aprisionamento que ele impusera à morte. E tremeu só em pensar o que isso poderia significar.
– Pois bem, sua hora havia chegado. Mas, como bem conhecia o meu calcanhar de aquiles, tratou de elogiar a minha beleza, com o fim de evitar a minha atuação. Daí que me pediu para deixar enfeitar o meu pescoço com um lindo colar. Só que o presente, na verdade, era uma coleira, com a qual me manteve cativo por um certo tempo, impedindo-me, assim, de consumar o seu passamento.
– Por sorte, se é que admitiriam que essa força se aplica à minha humilde pessoa, Hades, o Deus dos Mortos, interveio a tempo, e, libertando-me, reintegrou-me no trabalho habitual. E nem preciso dizer que levar Sísifo foi a tarefa mais prazerosa que já executei; e olha que levo gente a rodo, todos os dias, e desde que o mundo existe!
– Agora, acompanhem o meu raciocínio: Se pelo fato de ter sido aprisionado por um certo tempo, não só não pude arrastar Sísifo comigo, como também fiquei impedido de levar para junto de Hades qualquer outro ser vivente sobre a Terra, imaginem o que acontecerá à moral de vocês quando eu me for para sempre? Quem morrerá pela peste? Quem falecerá pela fome? E quem tombará pela guerra? Ninguém. E nunca mais!
A guerra confirmava, assim, o que há pouco deduzira. E abaixava a cabeça, cerrava os lábios, e embainhava a espada.
Por sua vez, a fome deixava cair ao chão sua balança, e a peste tornava lasso o seu arco.
Tais atitudes eram saboreadas pela morte como verdadeiros manjares olímpicos, o que aumentava a sua firmeza e o gosto pelo revide. E ela prosseguia:
– É claro que uma doençazinha aqui, uma privaçãozinha ali, e uma briguinha acolá continuarão a existir; não menoscabo nem desaprovo. Mas o pavor que vocês incutiam, a desolação que vocês espalhavam, e a destruição que vocês acarretavam, essas serão como as plumas lançadas à correnteza do rio, não voltarão jamais.
Uma pausa se fez. Era um momento de refazimento, em que a morte sorvia calma e prazerosamente os aromas dulcíssimos do triunfo. E não seria demais afirmar que em toda a sua trajetória, ela jamais sentira deleite maior do que o que experimentava neste instante. Mostrava, assim, às oponentes, quem de fato eram os personagens secundários, e lhes impunha uma dolorosa realidade: O Anjo da Morte morreria. Mas os três flagelos perderiam a razão de ser.
E como arremate à sua encenação, a morte esmagava a ampulheta com o pé esquerdo, transmitindo a ideia de que o tempo delas também havia chegado.
Mas a morte não se satisfez, e, enérgica, passou a desafiá-las abertamente. Ela sabia que, fosse qual fosse a reação, sempre sairia ganhando:
– Anda! ó guerra, panaceia dos insensatos, desembainha a tua espada e me degola! – e oferecia satisfeita o pescoço.
E como não obtivesse o pretendido, voltava-se para a peste:
– Vamos! ó peste, lodaçal virulento, flecha-me de vez o peito! – e o ofertava sem temor.
Mas o arco se mantinha frouxo. Então se virou para a fome:
– Adiante! ó fome, sanguessuga dos subnutridos, desossa-me se puderes! – e caía na gargalhada, ante a particular constituição.
– Você nos pegou. – disse a peste, inconsolada.
– É, peguei. Se me matarem, vocês como que deixam de existir. E se não apressarem a minha morte, morrerei do mesmo jeito, e mais cedo do que se imagina. Quanto me resta? Não vou contar. Só sei que falta pouco, muito pouco. Ah, ia me esquecendo: Uma outra coleira nada mais faria do que me aprisionar.
– Como assim? – indagou a guerra, das três a mais limitada.
– Intelligenti pauca. – “A bom entendedor meia palavra basta”, proverbiou em latim a morte, abusando do pouco-caso.
Outrora poderosos e implacáveis, os três cavaleiros viam-se, agora, as mais impotentes e inofensivas das criaturas. Sobre a Terra, ditaram o destino de nações inteiras pelos tempos que se foram. Ante a sina da morte, contudo, só lhes restava ver passar o tempo, sem nada que pudessem fazer.
– Mas, mudando de assunto, vamos brindar à minha última viagem. A primeira rodada é por minha conta. Champanhe…? – e levantava o braço, encenando chamar um garçom.
– Vamos embora, companheiros. – resmungou a fome – Pelo menos por agora, perdi a vontade de comemorar.
E saíram cabisbaixos, tão mudos quanto defuntos.
Por sua vez, a morte era só alegria, e, como tal, pôs-se a dançar, a cantarolar e a rir.
Em certo momento, porém, porque cansasse de tanta comemoração, puxou de uma cadeira e se sentou. Inspirou profundamente, cruzou os dedos, e, volteando os polegares, fez-se a seguinte pergunta:
– E agora, Grim Reaper, o que vai ser? A Terra ficará melhor sem você? Mas, e o tédio? Sim, porque se ninguém mais poderá morrer, o que acontecerá com a Humanidade depois que cada um já tiver feito de tudo nesta vida? E a indústria farmacêutica, e a armamentista?! Quantos ficarão desempregados!… Não, acho que não. Creio que a grande maioria será absorvida pela indústria de alimentos. Mas divertido mesmo será quando aquele trio agourento se confrontar com a própria ineficácia. Perto desta mortificação, o castigo imposto a Sísifo é fichinha! – rolar, por toda a eternidade, uma grande pedra de mármore até o cume de uma montanha, sendo que, toda vez que ele estava prestes a alcançar o topo, a pedra rolava montanha abaixo até o ponto de partida, por meio de uma força irresistível – Ah, como eu gostaria de estar vivo só para rir nas suas fuças! Pena que…
A morte recomeçava a ficar deprimida. Experimentava, ainda, um sabor que até então era desconhecido, uma espécie de transmutação de sujeito para objeto, e que, embora não quisesse admitir, nada mais era do que o gosto amargo que impusera a todos os Continentes no escalar da História.
O desânimo abraçou a morte por cerca de vinte minutos, tempo esse que coincidiu com mais uma crise de tosse daquela senhora de andador. E como a atitude que para com ela tomara teve um sabor único, inédito, a morte se perguntou se já não estaria na hora de abrir mão da rotina. E meneando a cabeça, perguntou como os que nada têm a perder:
– E por que não?…
Os dias que se seguiram foram marcados por fatos inimagináveis. E os jornais do mundo não se furtaram de publicá-los. Os milagres, como os chamavam as manchetes, iam desde a queda de aviões, em que não havia vítimas fatais, passavam pelos tsunâmi arrasadores, que só deixavam estragos materiais, e culminavam na taxa zero de mortalidade infantil. A ciência quebrava a cabeça para tentar explicá-los, mas o máximo que conseguia era ver converterem-se mais de um de seus expoentes. Curiosamente, algumas vozes deixaram de pregar que o fim do mundo estava próximo. Outras, contudo, que tais fatos eram, sim, os seus prenúncios, e que vinham às avessas, justamente para tentar confundir até os mais crentes.
Fosse como fosse, a morte não se descuidava da sua nova ocupação: Aqui, desviando os inocentes das balas perdidas; ali, amortecendo a colisão dos imprudentes nas estradas; e, acolá, providenciando para que o soro antiofídico nunca faltasse aos desavisados.
No entanto, há que se dizer que uma ponta de desagravo a tudo permeava, como se, a cada vida poupada, a morte mostrasse ao próprio destino o quanto era mais forte. E se isso não mudava a realidade, pelo menos a tornava mais suportável.
Tão extensos ficaram os novos tentáculos da morte que acabaram por enredar completamente as ações de seus três ex-amigos. Daí que ela se lembrou do quanto gostaria de estar viva na época em que eles estivessem amargando.
Ora, questionou-se, o que a impediria de antecipar estes momentos de bem-estar? Pois foi o que passou a fazer. Dessa forma, fossem epidemias de cólera, de dengue hemorrágica, ou mesmo de ebola, e a peste não conseguia dizimar os seus vitimados. As lutas armadas que ocorriam aqui e ali, fossem convencionais ou intestinas, não mais davam à guerra o prazer de ver encherem os cemitérios. E os que sempre conviveram com privações, fossem disputando a tapa um punhado de farinha de milho em acampamentos de refugiados, fossem vendo os dias, meses e anos passarem sem que uma gota de chuva viesse amenizar a desesperança, em um dado momento começaram a se nutrir, e a engordar! E não por força de odiosas verminoses, mas, sim, porque a fraternidade se uniu à tecnologia, que se uniu ao trabalho, que se uniu à lavoura, e foram desaguar na superprodução, e as mesas ficaram fartas.
Essas ingerências renderam à morte uma alegria adicional: As suas inimigas sentiam-se injustiçadas. Ora, uma coisa é saberem que inexistirão daqui a algum tempo, seja ele qual for, e, mesmo assim, poderem continuar a curtir o período que ainda lhes resta. Outra, bem diferente, e torturante, é a que aquela vingança impunha, privando-as dos últimos momentos de alegria a que teriam direito. E é claro que a morte, conhecedora dessa tragicomédia, redobrou a dedicação, impondo àquele trio maiores tormentos.
– Tem que haver uma saída! – protestou a guerra, cheia de cólera; e partia em dois uma mesa com sua espada.
– Mas qual?! – bradou a fome, ao mesmo tempo em que batia a porta da geladeira.
– Amigos, para todo problema existe uma solução. – a peste era a única que se mantinha equilibrada – Mas, para encontrá-la, é preciso que nos acalmemos. Só assim, serenados, é que teremos condições de enxergar a famosa agulha no palheiro. Vocês não concordam?
Poucos segundos foram necessários para que as outras concordassem. E a guerra foi a primeira a falar:
– Tem razão. Para que o inimigo seja destruído, muita vez é preciso acantonar as tropas e se debruçar sobre os mapas.
– Pena que, no nosso caso, o que justamente não pode ocorrer é o aniquilamento da morte. – comentava a fome, desalentada.
– Vamos, companheiros, não nos deixemos levar pelo desânimo. Pensemos!
E andavam de lá para cá; e trombavam, de vez em quando. Paravam, sentavam, bufavam. Cantarolavam uma marchinha e tamborilavam sobre um móvel. E repetiam o ciclo.
Os minutos foram se amontoando, e as horas, superpondo-se. E o desenlace, se houvesse, estava longe de ser encontrado.
Em certo momento, porém, a peste parou. Olhou para direita, para esquerda… E gritou aos comparsas:
– Sigam-me! Acho que encontrei uma saída. – saíram correndo em direção ao arquivo geral, um salão incomensurável em que ficavam guardados os dados de todos os seres humanos que já tinham partido para o outro mundo.
– Mas quem você procura?! – perguntou, aflita, a fome.
– Depressa! Espalhem-se e achem a galeria da Europa, século XVI, letra L; depois eu explico. – e puseram-se a percorrer os intermináveis corredores.
– Quando é que vamos informatizar este lugar?! – resmungou a guerra, lamentando não estar montada em seu corcel negro.
Cerca de uma hora se passou até que a fome gritou de um canto remoto:
– Encontrei, encontrei! Venham até aqui!
– Onde você está? – gritou a peste, do outro lado do salão.
– Eu estou aqui! E vocês, onde estão?! – era a guerra que meneava ao alto a espada, a fim de ser localizada.
O ridículo só teve fim quando a peste sugeriu às demais que só a fome berrasse. Mesmo assim, quase trinta minutos se passaram até que as três conseguissem se reencontrar.
– Mas quem, afinal, você procura?! – insistiu a fome.
A peste, contudo, não respondia, focada que estava em compulsar as incontáveis pastas.
– Aqui está! – e puxava com cuidado uma cartolina amarelada e identificada, no canto superior direito, apenas com o nome do falecido: León, Juan Ponce de.
– Esse nome não me é estranho. – comentou a guerra.
– Depressa, aos cavalos! – a peste lembrava às companheiras de que não havia tempo a perder, pois a morte poderia morrer a qualquer momento. – Explicarei no caminho para o Estige.
E chamaram nas esporas, e cavalgaram como raios.
Quando chegaram ao píer, encontraram Caronte de cócoras na beira do rio, segurando um caniço com o mesmo entusiasmo dos que só conseguem dar banho em minhocas. A inexplicável falta de passageiros, a primeira desde que fora oficialmente nomeado Barqueiro das Almas, impusera ao gigante o afastamento compulsório do trabalho, e uma baita de uma monotonia. E se perguntava se era preferível a pescaria ao álcool…
Os cumprimentos foram os mais enxutos possíveis. O problema foi que, como saíram às pressas, ninguém se lembrou de trazer uma simples moeda, condição necessária à travessia. E nesse ponto o remador era intransigente. Se não tivessem com que pagar, teriam que vagar pelas margens do rio por cem anos, para só depois poderem embarcar.
O clima esquentou. E da discussão passou-se ao empurra-empurra, e a guerra até puxou sua espada.
Mas Caronte era mais forte e alto que os três cavaleiros, e, seus remos, inquebrantáveis como o aço. O impasse só foi decidido, e Caronte persuadido, quando a peste explicou que se não atravessassem rapidamente para o outro lado, a fim de conversarem com o famoso explorador espanhol, a morte morreria inexoravelmente, e, por consequência, nunca mais haveria mortes, e, por conseguinte, banhar minhocas seria a sua sina por toda a eternidade.
A travessia se deu na metade o tempo.
Em terra firme, logo encontraram o Deus dos Mortos. Como este era bem mais perspicaz que seu barqueiro, entendeu de primeira o motivo da visita e a proposta que traziam os cavaleiros. E como concordasse com tudo, pois, caso contrário, o seu reino por certo seria um dos mais prejudicados, não demorou muito para que Ponce de León fosse trazido à presença de todos.
A peste, então, porque não quisesse perder mais tempo, foi logo propondo ao condenado a liberdade, em troca de sua ajuda.
– Como dizeis?! Estais me oferecendo voltar à vida se eu vos ajudar?!
– Foi isso mesmo que eu disse. Aceita?
– Sim! Sim!…
– Ótimo. Pois escuta bem o que terá que fazer… – e contaram o plano. Depois, retomaram o barco e regressaram ao Mundo dos Vivos.
Foi no começo da tarde que a morte, ao se virar, e depois de um relaxante espreguiçar, deparou-se com a figura enérgica e emplumada do ex-conquistador espanhol.
– Ora, ora… Quem é morto, às vezes aparece. – E fixava os olhos no ressuscitado, como a tentar desvendar o que se passava.
– Imagino o quão surpreso vós estais em rever-me. – retrucou Ponce de León, ainda extasiado com a liberdade recém-conquistada.
– Realmente. Ao que me lembro, só Sísifo conseguiu voltar do reino de Hades, com a desculpa de que queria se vingar da esposa, pois esta o desrespeitara ao recusar enterrá-lo. Ora, não vai me dizer que ele caiu nessa de novo?
– Não, não houve artimanha nenhuma.
– Mas, então…?
– Sei que sois infinitamente mais velho do que eu. No entanto, ouso contar-vos uma história que talvez não conheçais.
– Sou todo ouvidos.
– Sob o reinado e o patrocínio de Fernando e Isabel, singrei os mares à procura de novas terras. E foi em Porto Rico, onde fui nomeado governador, no ano da graça de 1508, que soube, por meio dos nativos, da existência de um tesouro imensamente mais valioso do que todos os outros até então acumulados… – Mas a morte o atalhava:
– Não quero ser mal-educado, mas pouco se me dá os tesouros que os mortais acumulem, produzam, descubram ou saqueiem. Minha alegria nunca esteve nisso. O máximo que fiz foi usá-los como meios para apressar o meu ofício. Portanto, não vejo… – Agora, porém, era a voz do ex-colonizador que se sobrepunha:
– Não me referia ao ouro, à prata ou às pedras preciosas.
– Não?
– Não. Falava daquilo a que sempre almejaram os seres humanos: A imortalidade!
– Imortalidade…?
– Sim. Referia-me à tão perseguida Fonte da Juventude.
Os olhos da morte brilharam. Mas com um fulgor que em tudo diferia do êxtase proporcionado pelas hecatombes. Reluzia-se, na verdade, um filete de esperança.
– Mas ela não é uma lenda? um sonho?…
– Fosse mito ou quimera, e por que vossos inimigos…? – e a morte o cortava de novo:
– Ah! sempre soube que quando a esmola é demais… – Mas Ponce de León insistiu, dramatizando de acordo com o planejado:
– E por que a peste, a guerra e a fome teriam tido o trabalho de descer ao Mundo Inferior, e, com a anuência de Hades, o de proporcionar a mim, pobre réprobo, a indizível ventura de retornar à vida, senão para que diante de vós me apresentásseis, e, de coração aberto, oferecesse-vos o antídoto ao vosso fim? Ora, bem podeis deduzir que é a vossa sobrevivência que a eles interessa! Mas, se preferis desaparecer para todo o sempre, pois para baixo é que não ireis, se a vós aprouverdes simplesmente deixar de existir, quando podeis ter em mim, na minha ciência, a tábua que salva, então me considero quite com o meu compromisso, e seguirei o meu caminho só e jubiloso, pois tenho muito o que fazer, muito a recuperar. Caso contrário, segui-me. – e dava meia-volta, montava em seu cavalo, e aguardava a resposta.
Por algum momento ficou a morte assim, chocada. Dentro de si, brigavam o orgulho ferido, pois foram as suas atuais inimigas que proporcionavam a possibilidade de continuar a existir, e a vontade de viver, com todas as peripécias que o futuro certamente ofereceria. Mas só um deles falaria por último.
Na manhã seguinte, a morte e seu guia desembarcavam em uma ilha chamada Bimini, ao norte de Cuba, paraíso onde a Fonte da Juventude estaria escondida, local esse a que Ponce de León não conseguira chegar quando vivo, pois em vez de ali aportar, foi descobrir uma outra costa, que batizou La Florida (atual Flórida), e na qual acabou sendo alvejado mortalmente por índios.
A procura, iniciaram-na sem demora, pois ambos sabiam que o tempo escoava. Por três dias procuraram o mais valioso dos tesouros. Os inevitáveis atrasos, é claro, ficavam por conta das limitações materiais impostas ao espanhol.
Na alvorada do quarto dia, o egresso dos mortos deparou-se com um grotão. Pelo que se lembrava das conversas que travara sobre a Fonte, essa depressão em tudo se parecia com as descrições que foram arrancadas dos antigos escravizados. Ora, o máximo que poderia acontecer era não ser esse o lugar. E a busca recomeçaria, a despeito da decepção.
Como se munira de muitos apetrechos, usou e abusou de sua espada, embrenhando-se depressão adentro, tal qual nas épocas gloriosas das conquistas. E horas se passaram até que o último cipoal fosse cortado e deixado para trás, vitória essa que teve um certo preço: O coração batia acelerado; o corpo doía; a língua estava seca e as mãos, feridas e calejadas; e a tez, arranhada, picada e suarenta.
Parando um pouco para descansar, Ponce de León como que se via em pleno século XVI. Tudo recordava março de 1513, quando saiu à procura da fonte milagrosa; salvo, é claro, os perigos que ofereciam os habitantes daqueles tempos, agora inexistentes.
Recuperadas as energias, passou a enfaixar suas lança e espada. Improvisada, assim, uma alavanca, e com a ajuda de um ponto de apoio, conseguiu afastar uma grande pedra que impedia a passagem. Foi aí que, dando alguns passos para frente, o desbravador se deparou com uma espécie de câmara, cujo breu parecia jamais ter sido rompido.
Como trouxera óleo, pederneira e trapos, logo fez uma tocha. E se pôs a explorar.
Não foi preciso muito tempo para que uma belíssima construção de mármore branco, adornada com lápis-lazúlis, jades e muitas outras pedrarias, se revelasse aos seus olhos úmidos.
– Depois de séculos!… depois do Tártaro!… Eu finalmente encontrei a Fonte da Juventude!
O silêncio que se seguiu, fruto do êxtase, foi sendo rompido à medida que Ponce de León ia prestando atenção em um suave murmúrio. Aos seus ouvidos, portanto, não se tratava de um simples filete de água corrente. Era música celeste, o canto dos Serafins!
E ele andou até a fonte da música… e se ajoelhou diante dela… e chorou compulsivamente.
Ele triunfava onde muitos sucumbiram.
O prêmio? Um gole vagaroso, lânguido, inexplicável!…
Depois de sorver dessa água cristalina, e de lavar o rosto, como a expurgar-se de todos os pecados, Ponce de León, ainda de joelhos, sentenciou a voz rouca:
– Que ironia… – A Fonte da Juventude perdera completamente a sua utilidade, pois a morte partira para sempre, na noite anterior.
 
Dias Campos
diascampos1@gmail.com