OS VOOS DE UM HERÓI

 
 
Às vezes, o melhor que se tem a fazer é não reavivar o passado. Mas não foi o que aconteceu ao comandante João Ribeiro de Barros.
A II Guerra Mundial terminara havia dois anos. A tarde estava fria e chuvosa naquele meado de julho. E João Ribeiro ia e vinha na cadeira de balanço, na varanda de sua fazenda Irissanga, absorto e completamente descrente dos homens que se mantinham no poder. E assim teria ficado, não fosse um cutucão dado pelo carteiro.
As três primeiras cartas, o aviador jogou ao chão. Na última, no entanto, reluzia a chancela dos Estados Unidos da América, o que despertou a sua atenção. Quando foi ao remetente, suas mãos tremeram, a boca secou, e a vista ficou turva. E todo um passado começou a se desenrolar…
Estimulado pelas proezas recém-alcançadas por portugueses e espanhóis, o paulista João Ribeiro, um apaixonado pela aviação desde a juventude, resolveu buscar a glória, junto ao Aeroclube Brasileiro.
Uma vez conquistado o brevê internacional, da Ligue Internationale des Aviateurs, e contando, apenas, vinte e cinco anos de idade, o ambicioso aviador buscou se aprimorar, e regressou às terras do Tio Sam para um curso de pilotagem e navegação aérea.
Admitido com louvor, seus instrutores ficaram boquiabertos diante da familiaridade que demonstrou com a novíssima tecnologia, e da gana que transpirou ao buscar a excelência.
Isso gerou mais de um despeito, ainda mais quando seus colegas de curso se lembravam de que não lidavam com um conterrâneo ou um europeu, mas, sim, com um exótico sul-americano.
Mas se alguns o invejavam, a maioria o admirava, e as amizades iam crescendo e se solidificando.
Numa dada manhã, João Ribeiro foi convidado para a festa de aniversário da única prima de um seu colega de curso, e que aconteceria na noite seguinte. E ele aceitou.
Quando chegaram ao local da festa, João Ribeiro ficou assombrado. Não que já não conhecesse os ambientes requintados… Afinal, vinha de uma família abastada, graças à riqueza que a lavoura do café produzia. É que a residência que surgia aos seus olhos era tão faustosa que deixaria em segundo plano o castelo onde morava O Grande Gatsby.
Havia tantos convidados, que os amigos mal podiam se locomover; e muito menos conversar. O jeito foi apanhar cada um o seu champanhe e rumar o mais rápido possível para fora da mansão, onde, em princípio, poderiam curtir a festa como tinham imaginado.
Quando alcançavam o jardim principal, a anfitriã logo reconheceu o seu sobrinho. Foi o bastante para que ela o agarrasse pelo braço e o cobrisse de afagos, carinhos esses que o deixaram bastante envergonhado e proporcionaram contidas risadas a João Ribeiro.
Depois das apresentações, a tia coruja perguntou se já haviam dado os parabéns à aniversariante. E como dissessem que não, ela fez questão de levá-los à presença da filha, que se entregava a uma sessão de fotos, ao lado da grande fonte.
Mary Mayer Wordsworth estava deslumbrante! Moça lindíssima, de estatura mediana e corpo bem talhado, pele alvíssima e cabelos negros, era, sem dúvida, a joia mais reluzente da festa.
E se esse anjo aprisionou a atenção do estrangeiro, os olhinhos negros da única herdeira também se ofuscaram ao fixarem o garboso rapaz – era bonito, tinha porte atlético, olhos e cabelos castanho-escuros, e bastos, e possuía um sorriso único –, e a levaram a um sorriso absolutamente cativante.
Ao saber que estava diante de um legítimo brasileiro, e de um aviador, o coração de Mary Mayer descompassou, pois ela enfim encontrava o homem que povoava a intimidade dos seus sonhos juvenis, aquele que reunia a beleza tropical à extrema coragem.
Não se precisaria dizer que a festa passou a ter um gosto bem especial ao casal, fato esse que não passou despercebido à matriarca, ao seu sobrinho, e muito menos ao pai da adolescente, o calculista George Mayer Wordsworth.
Em que pese ser muito requisitada – incluindo, aí, três possíveis pretendentes escolhidos a dedo por seu pai, graças ao brasão e à fortuna que ostentavam –, Mary Mayer não se deixou intimidar, e, não se fazendo de rogada, tratou ela mesma de convidar o forasteiro para dançar.
Mesmo sendo o charleston a dança da moda, e a predileta da aniversariante, João Ribeiro nunca se arriscara a um único passo. Esse visível desconforto foi logo percebido por Mary Mayer que, por entre risos e toques insinuantes, ainda tentou ensinar ao desconcertado paulista um e outro passos.
No entanto, como voar era bem mais fácil que dançar, a jovem acabou desistindo, e o convidou para um passeio.
Como o terreno, que era a perder de vista, incluía um bosque, os dois caminharam a passos lentos em direção às árvores, até que conseguiram ficar a sós.
Mas se João Ribeiro demonstrou ser um zero à esquerda em matéria de foxtrote, no quesito conquista ele confirmou a sua natural habilidade, a de um ás. Daí que, aproveitando-se da mudez que o momento impunha, ele, de súbito, a enlaçou e a beijou com ardor. E podem ter certeza de que não houve nenhuma resistência de sua parte.
Como a ausência da rainha da festa já se fazia sentir, o casal resolveu voltar aos convidados; mas não sem se darem os braços, o que deixou o colega de João Ribeiro impressionado, e aqueles três candidatos a pretendentes, com cara de patetas.
E se a mãe de Mary Mayer ficou surpresa, mas feliz, o Sr. Wordsworth sentiu-se ultrajado ao ver a filha abraçada àquele “índio”. Mas como a sabia extremamente voluntariosa, e como não queria nenhum escândalo, resolveu engolir a seco o insulto e deixar que a festa seguisse. No dia seguinte, eles teriam uma conversa mais amena, em que ele a faria perceber a insanidade que cometera.
Desde que retornaram ao salão principal, o casal não mais se desgrudou; salvo quando o pai de Mary Mayer apareceu e, com ares de cortesia, quis saber quem era o felizardo que monopolizava a atenção do seu mais valioso tesouro.
Feitas as apresentações, o patriarca trocou meia dúzia de palavras com João Ribeiro, por mera formalidade. Em seguida, e porque não aguentasse o sangue que fervia, alegou as obrigações de anfitrião e se afastou.
Mary Mayer, que bem conhecia seu pai, sentiu que algo ficava no ar… Mas como o momento era de felicidade, retomou o conversa com seu par. E quis saber muitas coisas sobre sua terra natal, e muitas mais sobre o próprio João Ribeiro. Ficou surpresa quando ele disse que já estivera nos Estados Unidos, seis anos antes, para se aprofundar nos estudos de engenharia mecânica, e ficou maravilhada quando contou sobre os vários reides que realizara nos três últimos anos pelo interior do Brasil.
Lá pelas tantas, a adolescente perguntou a João Ribeiro, e não sem um certo interesse, quais seriam os seus próximos planos.
O piloto respondeu que tão logo concluísse o curso que fazia, pretendia se inscrever no de acrobacia aérea, cuja escola ficava na Alemanha.
Mary Mayer sorriu orgulhosa. Afinal, quem de suas amigas teria um namorado que fosse bonito, aviador, e audacioso? Nem namorado elas tinham!…
E como João Ribeiro estivesse muito feliz, e um tantinho alegre, graças às taças de champanhe que consumiu, acabou segredando ao ouvido da garota a sua mais audaciosa pretensão, aquela que o elevaria ao patamar de herói nacional, e mundial! – o primeiro reide transoceânico realizado por meio de um único avião, sem a garantia de amparo que os navios prestavam até então, e que ligaria Gênova, na Itália, à represa de Santo Amaro, em São Paulo, Brasil.
A extrema coragem demonstrada por João Ribeiro deixava o coração da jovem palpitando de euforia. Tanto que ela nem pensou nos riscos e perigos que adviriam de uma empreitada dessa magnitude. Em seu mundo, riquíssimo e sonhador, Mary Mayer sequer supunha que outros já tinham tentado a travessia, e acabaram morrendo. Assim, e num lampejo de ideal, ela já se via ao lado de um herói mundialmente conhecido, frequentando festas e fotografando para os jornais.
E nesse júbilo seguiu o casal noite adentro, trocando, por vezes, disfarçadas carícias. Ela só despertou desse sonho quando seu primo veio lembrar a João Ribeiro que já era hora de partirem.
No dia seguinte, todos os argumentos levantados pelo Sr. Wordsworth foram infrutíferos. E como os ânimos já se acirravam, Mary Mayer deixava escapar, e não sem aumentar bastante a verdade, que João Ribeiro a pediria em casamento tão logo concluísse a conquista do oceano Atlântico. E para dar mais fôlego à sua versão, fez questão de apontar a destreza que alcançaria com o novo curso que faria na Alemanha, e de enaltecer os pontos que diferenciariam a sua travessia das anteriores.
O patriarca calou-se. Se sabia que sua filha não apostava sem cacife, não ignorava que, nos moldes pretendidos por João Ribeiro, tal façanha nunca seria concluída, pois as aeronaves não tinham autonomia para grandes distâncias, e, por isso, os países que bancavam esses reides jamais se arriscariam a tamanha loucura. Sendo assim, preferia apostar no tempo e na distância como os coveiros mais eficazes ao sepultamento desse arroubo juvenil.
O tempo passava, a distância que separava os namorados era enorme, e permanecia… Mas a paixão que os unia só fazia aumentar. E as cartas que trocavam – todas lidas às escondidas pelo patriarca – eram as provas mais sublimes.
Essa persistência muito enraivecia o Sr. Wordsworth. No entanto, como João Ribeiro nada dizia em suas cartas sobre a pretendida travessia, essa “condicionante matrimonial” permanecia no limbo, o que amenizava a sua cólera.
Esse silêncio tinha, sim, os seus motivos, uma vez que todos os passos que João Ribeiro daria teriam que ser no mais absoluto sigilo. Afinal, a glória internacional estava em jogo. Assim, para atravessar o oceano Atlântico, ele precisava de uma aeronave com determinadas especificações, e de muito dinheiro. Este empecilho foi afastado com a venda da sua parte da herança aos irmãos. Quanto ao outro, a tentativa frustrada de chegar ao Brasil com um hidroavião Savoia Marchetti, empreendida pelo conde Casagrande, e sua consequente devolução à fábrica, aliada à engenhosidade do piloto paulista, foram as peças que faltavam ao prosseguimento do projeto.
João Ribeiro recomprou esse monstro de madeira e lona, e que pesava mais de quatro toneladas, e o modificou de acordo com as dificuldades a serem vencidas – retirou tudo o que fosse desnecessário, incluindo o equipamento de rádio, pois também pesava; trocou os dois motores por outros mais potentes; substituiu os dois botes gêmeos (scafi) por duas unidades de proa alta e de melhor hidrodinâmica; e o transformou em um grande tanque de combustível voador, com dezesseis reservatórios (oito em cada scafo), o que, segundo os seus cálculos, proporcionariam a necessária autonomia para vencer a enorme distância que separava os dois continentes. Por fim, rebatizou-o Jahú, em homenagem à sua terra natal.
Nesse meio tempo, a tripulação já estava completa – o tenente Arthur Cunha seria o segundo piloto, o capitão Newton Braga, o navegador, e o amigo Vasco Cinquini, o melhor dos mecânicos.
Com tudo pronto, João Ribeiro tornava público ao mundo o reide que idealizara. E todos os holofotes para ele se voltaram, incluindo os do pai de Mary Mayer, que quase enfartou.
À medida que se aproximava a data anunciada para a decolagem, mais radiante revelava-se o semblante de Mary Mayer, e mais odiento se tornava seu pai.
E por entre praguejares e vociferações – ditos, sempre, na clausura do seu escritório, para não bater de frente com sua filha –, o milionário vislumbrava algo que resolveria de vez o problema do casamento. E quanto mais aprimorava a ideia, mais sinistro se tornava. A autoria da sabotagem? Ora, a autoria!… O orgulho europeu, estampado na frenética competição pela supremacia aérea, vinha muito bem a calhar. E, concluía orgulhoso, que se deixasse a polêmica para os historiadores!
O Jahú foi, então, transportado para Gênova. E em 13 de outubro de 1926, decolava sob as ovações dos italianos, para a primeira fase do reide, rumo a Gibraltar.
No entanto, com apenas cinco horas de voo, a tripulação teve um sobressalto, pois os dois motores começaram a ratear perigosamente.
Como o dinheiro do Sr. Wordsworth já havia alcançado Gibraltar e garantido um informante, e como as horas passaram muito além do previsto para chegada do Jahú, o pai de Mary Mayer recebia um telegrama, cujo texto levava a crer que o hidroavião caíra ao mar.
George Mayer exultou! A sabotagem dera certo, e ele não mais precisava se preocupar com a desprezível ideia de ser sogro de um caipira metido a herói.
A verdade dos fatos, porém, era bem outra. João Ribeiro foi forçado a amerissar em Dénia, no golfo de Valência, de onde seguiu para Alicante, que não tinha sido prevista na rota original. Lá, foram detidos pelas autoridades espanholas, que deles nada sabiam. A intervenção da diplomacia brasileira, contudo, permitiu fossem soltos. De volta ao hidroavião, e sem terem condições de reparar os sistemas de alimentação dos motores, o Jahú tornou a decolar rumo a Gibraltar, mas com o mecânico Cinquini alimentando os motores manualmente.
Chegados a Gibraltar, Cinquini e João Ribeiro procederam a uma inspeção dos motores. E qual não foi a surpresa quando constataram a presença de uma borra abrasiva nos filtros de combustível, uma mistura de terra, areia e sabão caseiro!
Ao constatar que estavam vivos, o informante enviou um outro telegrama, relatando o que de fato tinha acontecido.
O Sr. Wordsworth espumou, e surtou! E depois de proferir outras tantas pragas e frases coléricas, jurou que sua filha jamais se casaria com aquele aventureiro. Mas como conseguiria o seu intento, se até o ato extremo fracassara? E depois de muito pensar, outra ideia veio reconfortá-lo…
Quando o Jahú alcançou a Praia, no arquipélago de Cabo Verde, João Ribeiro teve três desagradáveis surpresas, uma em seguida da outra. A primeira veio do seu segundo piloto. Cooptado pelo jornal carioca A Pátria, o tenente Cunha exigiu que João Ribeiro lhe entregasse o comando da aeronave e da tripulação. Seria ele muito bem recompensado por revelar à população, e ao mundo, o furo de que o Jahú chegaria ao Rio de Janeiro, mas sob o seu comando. A segunda foi a descoberta de que o responsável pela sabotagem também tinha introduzido um pedaço de bronze no cárter do motor traseiro, como garantia do serviço. E a terceira foi o recebimento de uma carta, assinada por Mary Mayer, em que a jovem rompia o namoro, justificando uma nova paixão por um advogado muito bem sucedido. E terminava desejando todo sucesso à aventura.
É claro que a carta fora escrita a quatro mãos, sendo que o falsário contratado pelo Sr. Wordsworth também escrevera para Mary Mayer, fazendo-se passar por João Ribeiro. Dizia-se cansado de tanta infantilidade e terminava o relacionamento, pois encontrara uma mulher muito mais bela e madura, ideal para se constituir família.
João Ribeiro resolveu o primeiro inconveniente desligando o amotinado e o enviando, “gentilmente”, para Lisboa. O segundo problema não passara de fogo-fátuo, e não impediu a continuação do reide, uma vez que o sabotador, talvez no afã de bem servir, acabou exagerando no tamanho da peça, o que fez com que ela permanecesse no fundo do cárter, evitando maiores danos ao motor. A terceira surpresa, contudo, foi demais para o destemido piloto… João Ribeiro perdia talvez o seu maior estímulo a que prosseguisse neste arriscadíssimo reide, o seu grande amor, e, por isso, deixou-se levar pelo desânimo. E como se isso não bastasse, a prostração a que se entregou foi ainda potencializada por quatro acessos consecutivos de malária.
Não obstante tudo por que passou, João Ribeiro readquiriu forças para prosseguir na viagem, seja graças ao emocionado e auspicioso telegrama que recebeu de sua mãe, insistindo para que prosseguisse, seja pela chegada do tenente João Negrão, aviador da Força Pública Paulista, o que permitiu recomporem a tripulação.
Não se poderia descrever o que sentiram João Ribeiro e seus três amigos quando alcançaram a enseada norte de Fernando de Noronha, já em território brasileiro. O país inteiro explodiu em hurras para homenageá-los, e as recepções foram simplesmente apoteóticas, sobretudo nas demais etapas por onde o Jahú amerissou – Natal, Recife, Salvador, Rio de Janeiro, e, por fim, São Paulo, onde o reide foi concluído. As festividades prolongaram-se por três meses, sendo que o comandante do Jahú recebeu mais de cem medalhas de outro e platina, adornadas com pedras preciosas, além de dezenas de cartões de ouro e troféus, isso sem contar as inúmeras condecorações que recebeu dos países estrangeiros!
Mas se o intrépido aviador conquistou a glória que tanto almejara, seu coração ainda sangraria por um longo tempo…
E agora, anos depois de estancada a ferida, a carta que acabava de receber rasgava de novo a sua carne, reacendendo todo esse rancor. Leu, com os olhos úmidos, que Mary Mayer casou sem amor, não teve filhos, e que foi morta pelo marido, homem ciumento e violento. E como não aguentasse mais ser espicaçado pela própria consciência, o velho Wordsworth buscava na confissão um alento ao seu remorso. E terminava pedindo perdão.
Diante desse golpe, e percebendo que sua vida poderia ter tomado outra direção, repleta de felicidade, João Ribeiro sucumbiu à depressão, e foi cerrando os olhos ao longo de uma semana.
Enganam-se, porém, os que pensaram que João Ribeiro nunca mais voaria. Ao reabrir os olhos, o herói contemplou Mary Mayer, que o esperava com aquele mesmo sorriso que tanto o cativara.
 
Dias Campos
diascampos1@gmail.com