O PENETRA

 
 
 
Se há alguém audacioso no meio social, esse alguém é o penetra.
Para aqueles que não sabem, penetra é, segundo o Aurélio, aquela “Pessoa que entra em bailes, festas, cinemas, teatros, etc., sem convite ou bilhete de entrada.” É o famoso bicão, que adora comer, beber e se divertir sem precisar dispender um único centavo.
Em que pese a definição contemplar um rol vasto de lugares atraentes ao penetra, cremos que o seu preferido continua a ser a festa de casamento.
Aliás, essa predileção não vem de agora. O próprio Machado de Assis a ela já se referia, em crônica de 04 de agosto de 1884: “Era uma vez um sujeito que aparecia em todos os casamentos. Em sabendo de algum vestia-se de ponto em branco e ia para a igreja. Depois acompanhava os noivos à casa, assistia ao jantar ou ao baile. Os parentes e amigos da noiva cuidavam que ele era um convidado da noiva, e, vice-versa, cuidavam que era pessoa do noivo. À sombra do equívoco ia ele a todas as festas matrimoniais.” (Obras completas de Machado de Assis – Balas de estalo & crítica, São Paulo: Globo, 1997, pp.39-40).
O trecho acima implica, necessariamente, dois tipos de reações, uma excludente da outra: Ou se achou engraçada a audácia desse entusiasta da high society, ou, pelo contrário, a ousadia desse estelionatário travestido de convidado causou revolta.
Aos que comungaram com a primeira reação, permitam-me dizer que haveria grande engano em pensar que o penetra iria a um casamento apenas para se deliciar com o perlage dos champanhes, para se empanturrar com variados salgadinhos ou para soltar a franga ao som do último hit.
Ouso afirmar que esses prazeres seriam meros coadjuvantes ante o seu real objetivo, qual seja, o descompromissado ato de ficar. – A propósito, a gíria do momento é crush, que significa a mina ou o cara de quem se está a fim. É, eu tenho as minhas fontes…
Nesse sentido, também seria um equívoco, e até um preconceito, supor-se que somente os homens poderiam ser enquadrados na recreativa categoria dos penetras. Afinal, há ou não igualdade de gênero neste país? As mulheres estão ou não se empoderando cada vez mais?
E tanto isso é verdade, que a diva Katy Perry se tornou uma das penetras mais conhecidas da Internet, por ter entrado, com sua equipe, em uma festa de casamento em St. Louis, no Missouri, em 2017. Daí sobraram alegria, diversão e muitas selfies (que viralizaram) com os recém-casados.
De outra parte, é notório que nas sociedades paulistana, carioca, mineira, etc., muitos “donos da night” sabem perfeitamente que em suas festas sempre irão se deparar com determinados penetras. Eu mesmo, que não sou nenhum figurão, poderia mencionar o nome de pelo menos três desses assíduos frequentadores.
Essa condescendência/conveniência chega até ser engraçada, pois os anfitriões fingem não saber que os habitués não foram convidados, e estes fingem não saber que aqueles não conhecem a verdade.
E o mais interessante é que uns e outros adoram tirar selfies, como se fossem velhos amigos…
Bem, depois de tantas festas, eles acabam mesmo se tornando amigos.
Mas se para uns o penetra está envolto em certo glamour – e já se tornou lugar comum os exemplos vindos da sétima arte, nacional e estrangeira –, para outros, os que preferiram a segunda reação, esse tipo de intruso deveria ser escorraçado sem dó nem piedade.
Com efeito, quando os donos da festa percebem que determinado fulano tem um rosto infamiliar, e que, depois de confabularem, constatam que nem um nem outro o convidaram, a vontade que irrompe é a de expulsá-lo a pontapés!
Mas como expulsar um emboca (expressão nordestina), sobretudo aqueles que se entregam sofregamente aos prazeres da boa mesa, sem armar um barraco? Afinal de contas, sabemos que existem muitas noivas por aí que não pensariam duas vezes para rodar a baiana.
Ainda bem que quando um primo meu resolveu convidar colegas de faculdade para uma festa de casamento da família, com o nobre intuito de que todos se divertissem, a noiva, que percebeu a presença dos abusados, ao invés de subir nas tamancas, apenas lhes endereçou dardos flamejantes pelos olhos. Isso foi suficiente para que apreendessem o recado e saíssem de fininho. Ufa!…
Seja como for, admirando-o ou detestando-o, o fato é que o penetra continuará a frequentar todo o tipo de reunião social, uma vez que os comestíveis, os “bebestíveis”, a diversão e a azaração, somados a uma boa dose de adrenalina, superam, e muito, qualquer receio de punição. E isso para o pesar dos organizadores!
Sendo assim, é preciso que eu me vá. E não porque o assunto ou o espaço estejam acabando, mas, sim, porque já é tarde, e não posso me atrasar para o casamento desta noite…
Dias Campos
diascampos1@gmail.com