O INVENTOR

 
 
Rogério sempre ouviu de seu pai que as invenções mais úteis resultam das ideias mais simples. E como exemplo, mostrava a icônica mãozinha, aquela haste, geralmente feita de madeira, terminada em garra e que serva para coçar as costas.
Ora, o rapaz era um sonhador. E como tal, queria inventar alguma coisa que o fizesse rico e famoso, o que faria de seu pai o homem mais orgulhoso do mundo, e livraria a família da penúria em que viviam.
Ocorre que, por mais que ele se esforçasse, sua pouca idade, e nenhuma experiência não permitiam que suas ideias fossem levadas a sério. E isso o deixava cada vez mais triste e revoltado.
Em certo dia, Thaís, a professorinha da escola rural em que o Rogério estudava, percebeu que o seu aluno mais talentoso estava para lá de amuado.
Ao término da aula, pediu que ficasse, e o chamou a um canto para conversarem.
Rogério, então, contou o que sentia, e terminou perguntando, por entre lágrimas, por que ninguém acreditava em suas ideias?
Thaís sorriu, pôs a mão sobre a sua cabeça, e fez um cafuné. E acabou respondendo que as ideias melhorariam com o passar do tempo. Assim, que ele não desanimasse, e que prosseguisse com os estudos, pois, mais cedo ou mais tarde, ele não só seria capaz de ver uma invenção pronta e acabada antes mesmo de pôr a mão na massa, como, também, que as pessoas até brigariam para produzir a sua criação. E para provar que falava a verdade, deu o exemplo do valioso diamante que sempre esteve escondido na pedra bruta, mas que já era concebido pelo artista, antes que iniciasse a sua lapidação.
O menino voltava a ficar esperançoso. Afinal, bastava que tivesse paciência, e que seguisse estudando, para que, no devido tempo, conseguisse ver aquilo que ninguém mais podia ver, e que seria disputado a tapa pelos grandes empresários.
O tempo foi passando, e a adolescência, ganhando terreno. E o estudo teve que ser trocado pelo trabalho, pois, com a morte de seu pai, Rogério passava a ser o arrimo de família.
Assim, graças à ajuda de Thaís, ele conseguiu ser admitido como faz-tudo em um mercado da cidade.
Em pouco tempo, o garoto conquistou a afeição de sua patroa. A bondosa senhora, que era viúva e não tivera filhos, sentia um aperto no coração ao ver um jovem com tanto potencial ser limitado pela falta de recursos. Assim, propôs um aumento de salário, mas com a condição de que voltasse a estudar.
Rogério exultou! E se sabia que teria que se desdobrar para conciliar o trabalho com o estudo, sabia, também, que poderia voltar a sonhar com uma vida melhor, o que fez com que retomasse o desejo de ser um grande inventor.
A facilidade com os números, já demonstrada na função de caixa, ganhou novos horizontes na escola, o que fez com que o estudante se voltasse para as ciências exatas.
Daí que, mesmo tendo dificuldades com algumas disciplinas, sobretudo com as humanas, Rogério não desapontou sua ex-patroa, e concluiu o ensino médio com louvor.
Engenharia foi a faculdade que escolheu. Mas como sabia que esse curso era um dos mais caros e concorridos que existe, ou passava em uma universidade pública, ou teria que adiar o seu futuro.
E tão logo saiu a lista dos aprovados, Rogério fez questão de ir pagar a promessa que fizera a Frei Galvão, o patrono dos engenheiros, arquitetos e construtores.
Os anos correriam ligeiros. O universitário nem os sentiria passar, sobretudo porque se deliciava com a área que escolhera, a Engenharia de Materiais.
Mas havia ainda uma lacuna a ser preenchida… Rogério já estava no último ano da faculdade, mas até esse momento não conseguira ter uma única ideia que o agradasse, fosse simples ou complexa. Desse jeito, pensava, poderia até ser contratado como engenheiro na multinacional em que estagiava, fato esse dado como certo; no entanto, fazer a diferença no mercado de trabalho, por meio de uma invenção que lhe proporcionasse fama e riqueza, ah! isso ele ainda não conseguia vislumbrar.
Não se poderia afirmar qual dos dois eventos foi o mais emocionante, se quando segurou o diploma na colação de grau, ou se quando recebeu a carteira de trabalho devidamente preenchida.
Mas ele mesmo não vacilaria em afirmar que a maior emoção que já sentiu aconteceu num domingo em família, depois que todos almoçaram.
Contrariando sua mãe, Rogério se ofereceu para lavar a louça. Por descuido, deixou escorregar um prato que caiu sobre os outros que estavam dentro da pia.
O fato de um deles ter se partido ao meio não foi o que mais o impressionou. O barulho característico do choque, esse sim, provocou uma verdadeira reviravolta em sua mente!
Com efeito, depois de todos esses anos, finalmente ele conseguia antever uma invenção revolucionária, conforme prometera sua professorinha. Apenas que a ideia não lhe parecia tão simples, o que contrariava o que seu pai dizia.
Rogério matutou por quase um mês. Ao final, apresentou um projeto de pesquisa à diretoria, afirmando que, se obtivesse o necessário apoio, a empresa seria a primeira no mundo a inventar uma espécie de louça que, além de mantidas quase todas as propriedades da porcelana, não produziria aquele barulho estrepitoso e irritante ao se chocar, o que, por certo, agradaria a milhões de donas de casa, e se imporia como um novo sonho de consumo.
Houve quem arregalasse os olhos, quem sorrisse por cupidez, e quem torcesse o nariz.
Rogério nem se preocupou com essa última manifestação. Mantendo-se calmo, pôs-se à disposição para esclarecer quaisquer dúvidas, e aguardou a deliberação.
Passados quase três anos dessa reunião, Rogério ainda trabalha naquele audacioso projeto, que contou com total apoio da maioria dos votantes, incluindo o da presidência.
E quando é questionado sobre resultados e cronogramas, desconversa quanto aos prazos e apresenta relatórios cada vez mais promissores. O nosso engenheiro tem absoluta certeza de que conseguirá a sua invenção.
Dias Campos
diascampos1@gmail.com