Muito mais que bolinhos…

Hoje estou saudoso.

Não que viva do passado ou tenha ficado descontente com o presente. Nem que esta semana seja tão emblemática a ponto de me remeter a uma data marcante.

E não me refiro à saudade que empata o dia ou encarranca o semblante, mas, sim, àquele sentimento gostoso, terno, que antes faz sorrir do que chorar.

Explico.

É comum que uma boa lembrança seja despertada não de maneira espontânea, mas, sim, provocada, seja por meio de um texto, um filme, uma música, um lugar, um cheiro…

E essa provocação não precisa vir acompanhada de fogos de artifício ou de uma estrepitosa fanfarra. Um acontecimento corriqueiro pode ser a chave hábil a destrancar de nossa alma recordações que acariciam.

E foi isso o que me aconteceu.

Como de costume, às quintas-feiras uno o agradável ao útil, isto é, vou visitar minha mãezinha e aproveito para filar o almoço.

Se ela cozinha bem?

Claro! Camarão na moranga, espaguete ao sugo (molho especial), pernil assado e feijoada são os seus manjares. – Que ninguém nos ouça, mas no cotejo entre feijoadas, ainda não bati o martelo sobre qual a melhor, se a dela ou a preparada por minha esposa.

Seja como for, aqueles quatro pratos só acontecem em datas importantes. – aquelas em que minha mãe está disposta a cozinhar.

Só que hoje, ela não estava.

Assim, tive que aguardar o almoço preparado pela cozinheira.

Mas ao contrário do que se supõe, não faltam àquela funcionária boa vontade e dedicação. Por isso, vem acumulando elogios a cada nova semana.

Daí que fui ao nono céu de Dante – sítio onde habitam os serafins – assim que a vi trazendo um pirex repleto de perfumados e tenros bolinhos de arroz, um dos pratos de que mais gosto.

Não preciso dizer que reservei três quartas partes do meu prato só para acomodar aquelas deliciosas frituras…

É fato que os outros pratos pareciam apetitosos. Mas todo o meu ser fixara-se naquelas sedutoras ambrosias, o que deixava para depois o experimentar dos “acompanhamentos”.

E foi no momento em que comecei a mastigar o primeiro bolinho que a saudade bateu à porta…

Com efeito, comer bolinhos de arroz é uma das muitas chaves que destravam em mim as doces lembranças de minha querida avó.

Ah! aqueles bolinhos de arroz… Sinto-os até hoje! mesmo depois de décadas do seu passamento.

É verdade! Consigo sentir, exatamente, o seu sabor, a textura, o aroma…

Eram tão gostosos, tão deliciosos que a mim não importava se os comesse recém-fritos ou os degustasse amanhecidos. Quentes ou frios, eram ambos irresistivelmente devoráveis!

É incrível como essas lembranças não se apagaram com o tempo. Aliás, sequer me esqueço do seu tamanho, do formato e da coloração que tomavam depois de fritos.

Ora, nenhum cozinheiro, seja ou não um masterchef, poderia ter a pretensão de recriar, muito menos a de superar o sabor e a textura dos “quitutes da vovó”. Por mais capaz, talentoso e dedicado, o máximo que poderia alcançar seria um excelente trabalho.

Por isso, se é verdade que os bolinhos que comia eram muito gostosos, pois tinham sido feitos com capricho – incluindo o toque de gergelim que os envolvia e que lhes realçava o sabor –, não menos exata é a afirmação de que estavam a anos-luz dos que minha avó preparava.

Mas isso não importa. Afinal, não só almocei muito bem, como, também, foi graças a esses bolinhos de arroz que vieram à tona aquelas cariciosas recordações.

Ah! minha adorada vozinha… Será que algum dia voltarei a me deliciar com os seus abraços, suas histórias e seus bolinhos?

Tenho fé que sim.

Sendo assim, e tendo a certeza de que a história desses bolinhos transcenderam os limites desta crônica, termino perguntando: E você, amigo leitor, qual a chave que mais destranca o seu baú de saudades?

Dias Campos

diascampos1@gmail.com