Hábito salutar

Sabem qual foi o fato ligado ao futebol que mais me chamou a atenção nos meses que antecederam a Copa?

Erraram se apostaram no inimaginável naufrágio da Squadra Azzurra, no milionário contrato assinado entre Neymar e o Paris Saint-Germain, ou na possibilidade de mudança da sede dos jogos porque a Rússia teria entrado na guerra.

Na verdade, o que me saltou aos olhos foi ter constatado que a criançada trocouo vício em joguinhos de computador pela euforia de colecionar, trocar e preencher osálbuns de figurinhas.

Interessante que essa mudança de hábito não se limitou ao ambiente familiar. Fiquei sabendo que alguns colégios de São Paulo estavam introduzindo essa atividadenas salas de aula, pois como o álbum contemplava várias linguagenscomo a textual, a do espaço social, a numérica, a da imagem, alguns professores descobriram umexcelente meio para o desenvolvimento dos conceitos de Matemática, de Português, de Geografia, seja no ensino infantil, seja no fundamental ou mesmo no médio!

Assim, uns miravam a leitura e a interpretação de textos, enquanto outros abordavam a educação financeira. E outros, ainda, demonstravam que a troca tem poder social.

De outro lado, esses docentes também passaram a perceber que a gana por conseguir figurinhas acabava desenvolvendo nos alunos novas habilidades. Daí que,além de ficarem mais desinibidos, o que, a meu ver, não deixa de ser uma arma poderosa contra o bullying, aprendiam a negociar e a firmar acordos.

Ainda bem que, segundo uma pesquisa divulgada pelo banco Santander, mesmo que o valor pago pelas figurinhas tivesse dobrado desde a última Copa, passando de 1para 2 reais, havia o consolo de que o custo para os colecionadores brasileiros era o mais baixo do mundo. E os pais agradeciam!

E por falar em pais, é claro que não apenas as crianças e os adolescentes se entregaram a essa prazerosa atividade. Certo dia topamos com um vizinho nosso, que também é pai, e que, logo em seguida aos cumprimentos, não se fez de rogado e foi perguntando ao meu filho se colecionava as figurinhas da Copa.

Como ouviu um sim, não só sorriu, como, também, tratou de acessar um aplicativo que inventaram e que tinha por finalidade facilitar as trocas. E foi mostrandoas que sobravam e as que faltavam.

Mas como eu não gosto de futebol, e como o meu garoto ainda não tem idade para usar celular, nós nem sabíamos que já tinham inventado esse tipo de facilidade.

Ora, nem preciso dizer que o filhão ficou uma fera…

Menos mal que essa ferocidade foi amansada ante a oferta do meu vizinho debaixar, na mesma hora, o tal do aplicativo.

Amansada, mas não suprimida. E lá fui eu para mais um desafio de bafo…

Por fim, a ferinha ficou absolutamente mansa. Pudera! Enquanto eu só conseguia virar uma figurinha a cada mudança de estação, o que me custava pancadas desajeitadas e doloridas, ele, batendo nas figurinhas com a palma da mão em concha, como é o correto, virava um punhado de cada vez, e sem que sentisse dor.

Aqui são oportunos uma explicação e um pedido. Explico que, como todo pai amantíssimo, sempre deixei o filhão ganhar. E peço, encarecidamente, que não riamnum tom muito elevado.

Mas, bem sabemos, tudo o que é bom tem um fim. Assim, fico imaginando, e com um aperto no coração, o que aconteceu quando a Copa acabou...

Será que as crianças que não conseguiram completar as seleções se esforçarampara adquirir as figurinhas que ainda faltavam, ou simplesmente largaram os álbuns naprimeira estante que encontraram?  Será que os professores abandonaram aquelamaneira original e lúdica de educar, ou ficaram atentos às novas coleções que são lançadas de tempos em tempos? Será que os pais que perceberam o bem que essa brincadeira acarretou não estimularam os seus filhos a que continuassem por essecaminho, ou será que preferiram que eles retornassem às telas do computador, com a mesma frequência de antes?

Bem, eu fiz a minha escolha. E se você ainda tem dúvidas, torço para que não precise de mais quatro anos para tomar a melhor decisão.

Dias Campos

diascampos1@gmail.com