Eta!..

É inacreditável a atualidade de Machado de Assis! E se bem que já tenha provado isso mais de uma vez, nunca deixo de me espantar, e de aplaudi-lo, a cada vez que leio sobre um fato que acabou de acontecer, e que nada mais faz do que repetir o passado.

Prestem atenção nesta notícia, tirada de O Estado de São Paulo, publicada ontem (22/08), no Fórum dos Leitores, em que Emanoel Cochen intitula “Folgados”: “Conforme deliberação da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, em 14/8, ficou estabelecido que os deputados estaduais participem tão somente de uma única sessão semanal até a próxima eleição. Nada mau, pois pouco legislam em favor do povo paulista. Mas que sofram redução salarial correspondente, de 80%.” (P.A3).

Agora vejam o que o Bruxo do Cosme Velho escreveu em1885, e que demonstra ser essa uma prática bem mais velha do que o próprio cronista:

“NÃO CONCORDO absolutamente com a censura feita ontem pelo Jornal do Comércio aos nossos costumes parlamentares, e não concordo por três razões tão grandes, que não sei qual delas é maior…

“A primeira razão, por mais que a achem má, é sólida e legítima. Há folgas extraordinárias na Câmara, dias de repouso, dias de chuva, e todo o sábado vale domingo. É isto novo? Abra o Jornal do Comércio, o livro dos Anais; veja a sessão de 25 de agosto de 1841, e leia um discurso que lá vem do finado Ottoni (Teófilo).

“Não é preciso lembrar que 1841 valia para nós uma segunda virgindade política. Acabava-se de declarar a Maioridade, parecia que o parlamento ia ser o beijinho da gente. Entretanto, Ottoni declarou a 25 de agosto de 1841 que muitos deputados da maioria gostavam de ficar nas suas chácaras, divertindo-se. ‘Outros (exclama ele) querem ir patuscar à Praia Grande!’ E mais adiante afirma que é comum suceder não haver casa só porque chove um pouco. O melhor é transcrever este trecho por inteiro:

“‘V. Exª sabe que eu não tenho medo do mau tempo (concluiu Ottoni), que qualquer que ele seja, apresento-me na casa, e às vezes deixo de entrar, porque me revolta ver que, tendo eu vindo com o meu guarda-chuva debaixo d’água, muitos senhores se deixam ficar em casa; de modo que às vezes deixa de haver casa porque chuvisca um pouco.” (Obras completas de Machado de Assis – Balas de Estalo & Crítica, São Paulo: Globo, 1997, pp.93-94).

Eta praticazinha avoenga!…

Dias Campos

diascampos1@gmail.com