Concerto Mefistofélico

Quem já não passou pela inesquecível experiência de morar ao lado de umcanteiro de obras?

Pois esse é o meu caso.

Na realidade, moro em um enclave, ou seja, ao meu redor foram e estão sendo construídos não um, mas, sim, quatro prédios!

É esse o planejamento, o modo de trabalhar da construtora, dona desses terrenos, isto é, assim que um prédio está quase pronto, o outro tem início.

Ora, tomando-se por média que para se construírem edifícios com mais de 14 andares leva-se dois anos para obras simples, e dois anos e meio para complexas nada como recorrer à esposa arquiteta –, já dá para imaginar o quanto eu e meus vizinhos vimos sofrendo quase uma década.

E se não deu para imaginar, vou tentar resumir:

O espetáculo tem início quando cercam o terreno com tapumes.

Passa-se o tempo, e pregam o cartaz que identifica o responsável pela obra.

Mais alguns dias, e põem Vulcano (O ferreiro dos deuses), seu martelo e bigorna no chinelo, pois o maldito bate-estaca começa a cravar as estacas não apenas na área em que vão edificar, mas, também, e principalmente, nas cabeças de todos os vizinhos que não sejam surdos!

E no nosso caso em particular foi ainda pior, pois mais de um bate-estaca foi utilizado, ao mesmo tempo e na mesma obra!

Em seguida a esse ininterrupto e devastador prelúdio, é a vez de um encadeado e monótono dueto:

Inicia-se com o arpejar das escavadeiras. São outros tantos dias retirandotoneladas de terra (para a construção dos subsolos) e depositando-as nas caçambas dos caminhões, em intermináveis vaivéns.

Ao depois, um a um desses silenciosos veículos, com as aceleradas e a fumaçaque os caracterizam, põem-se a caminho para sabe lá Deus onde, imprimindo à sala de concertos, o entorno, o saudosismo dos tempos de livre trânsito, e fazendo com que a emocionada plateia, os vizinhos, os saúdam em pensamentosfelizes”, palavras “reconfortantes”, e gestos “encorajadores”.

O dias vão passando, e prédio vai subindo. E, com ele, a sinfonia vai ganhando corpo.

Assim, ouvem-se, constante e diariamente, as trituradoras britadeiras, os vibrantes serrotes, e as metálicas marteladas – ó Haendel, que falta faz o teu Ferreiro Harmonioso!

Ah! não posso me esquecer dos magníficos acordes produzidos pelas betoneiras,nem de cada marcante vibrato com que nos presenteiam os caminhões bomba-lança, retirando daquelas o cimento fresco e o impulsionando, por meio de uma mangueira, até o local que precisa ser preenchido, dentro da obra. Eles permanecem em nossos corações – e, sobretudo, em nossas mentes por horas a fio!…

Mas o que mais me chamou atenção nesses últimos anos, o que mais me marcou nesses mefistofélicos concertos foram dois solos.

O primeiro, cujas notas ganham de mil a zero do sabiá-laranjeira (em matéria de melancolia), vem da inigualável Makita, a serra apropriada para cortar cerâmica.

Esse som é tão agudo, tão penetrante, que sempre tive a certeza de que duas coisas esperam o pecador ao adentrar os portais do mundo inferior. De um lado, Cérbero, o temível cão de três cabeças. E do outro, uma Makita enfeitiçada que corta sem parar, e cuja melodia consegue até superar os latidos e os rosnares do outro recepcionista.

O segundo, a parte vocal desses concertos, vem daquele servente de obra que, seja por amor à música, seja para aliviar o pesado do trabalho, resolve dar uma de Pavarotti e começa a berrar uma canção que está na moda – geralmente aquela que me dá arrepios!…

Esses tons conseguem até se sobrepor a todos os demais integrantes da orquestra! E haja fôlego para tantos refrões

Mas daí o sol se põe. E, como sabemos, vem o momento do silêncio, do sono que refaz.

Certo?

Errado.

Adivinhem qual é o período que a legislação reserva para que sejam descarregados os materiais para continuação da obra?

Acertaram os que, rindo, apostaram na noite. E como doem aos ouvidos quando os vergalhões se entrechocam ou despencam dos caminhões!

Seja como for, chega o momento em que o edifício está prestes a ser concluído. E alguém sabe o que acontece?

Também acertaram os que, rindo ainda mais, se lembraram do empolgante e interminável churrasco de cumeeira, em que os costumeiros barulhos são alegremente substituídos pela calorosa algazarra e pelos estimulantes pagode, funk e sertanejo.

E assim vem se estendendo esse concerto, dia após dia, semana após semana, mês após mês, e ano após ano.

Por isso que eu sempre digo: Abençoados sejam os domingos, em que os canteiros de obras ficam entregues às moscas, em que o máximo que se ouve são os roucos radinhos de pilha dos vigias noturnos.

Mas um dia isso acabará. E eu e meus vizinhos sobreviveremos; mesmo que saiamos com algumas rugas a mais, com charmosas cãs, ou com um e outro tiques nervosos.

Dias Campod

diascampos1@gmail.com