Atualidades Machadianas.

Ao ler “A conta do almoço”, crônica de Leandro Karnal (O Estado de São Paulo, Caderno 2, p.C6, 30/08/17), logo lembrei de Machado de Assis. Transcrevo, dela, estes excertos: “Qualquer benefício dado por um governo apresenta um custo… Sobre o uso do dinheiro público, há duas posturas iniciais. A primeira: aqueles que sabem que não há almoço grátis e desaprovam que o governo gaste com programas sociais, por exemplo… Existe uma segunda postura, igualmente importante. São os que reconhecem a desigualdade e conferem ao Estado o papel de nivelador. Assim, o almoço tem um custo que deve ser cobrado dos mais endinheirados para financiar almoços grátis para outros menos afortunados.” E daí a crônica de 1895, em que o nosso sempre Machado, em messiânica ironia – imaginou o século XX, mas, por óbvio… -, assim escreveu: “Chamfort, no século XVIII, deu-nos a célebre definição da sociedade, que se compõe de duas classes, dizia ele, uma que tem mais apetite que jantares, outra que tem mais jantares que apetite. Pois o século XX trará a equivalência dos jantares e dos apetites, em tal perfeição que a sociedade, para fugir à monotonia e dar mais sabor à comida, adotará um sistema de jejuns voluntários. Depois da fome, o amor.” (A Semana I, IN Obras Completas de Machado de Assis, São Paulo: Globo, 1997, pp.177-178).

Dias Campos

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