A Juréia

Já fazia um bom tempo que minha esposa e filho me cobravam para que fôssemos pegar uma praia.

Essa “carestia marítima” não se devia à falta de recursos, de tempo ou de saúde. É que, como prefiro a montanha, de mim não faltavam tergiversações…

Mas como as férias da minha esposa se aproximavam, as poucas evasivas que ainda me restaram não foram sequer consideradas.

Ora, diante dessa tomada de posição, intransigente e despótica, alternativa não tive senão a de usar minha autoridade de chefe de família. E sentenciei sem piedade:

Sim, meu amor.

Como não queríamos ir a um lugar habitual, lembrei-me dos elogios que muitos amigos fizeram à praia da Juréia, em São Sebastião. E a dica foi aceita.

Havia um senão: A previsão do tempo apostava mais em Zeus do que em Hélio para o final de setembro.

Mas, afinal, que peso teriam algumas pancadas de chuva ante um gosto satisfeito? – é o que me perguntava, trêmulo e resignado.

Por sorte, um velho axioma ainda pairava sobre a minha desdita – “A esperança é a última que morre. E mais uma vez a meteorologia se enganaria, pois se é verdade que o céu estava encoberto e chuviscava quando chegamos a Juréia, não menos verídico foi o fato de que as nuvens logo se dissiparam, e o sol se abriu, mesmo que modesto.

Foi só o tempo de concluirmos o check-in e desfazermos as malas.

Com efeito, os elogios a Juréia, começamos a comprová-los assim que saímos da pousada e caminhamos em direção ao mar.

Passamos por uma linda e bem cuidada praça circular, cujo respeitável diâmetroaté nos impressionou; transpusemos uma barreira de abricoteiros apinhados de frutos – por força das muitas placas ali expostas, pensei que se chamassem jundú (vegetação típica); e por fim, alcançamos o areião”, expressão de criança com que denominava a parte mais fofa e quente da orla.

Aqui confesso um único senão: Melhor seria se a praia não fosse de tombo.

No entanto, como em férias até as filas são agradáveis, deixei das minhaspreferências, e tratei de massagear as panturrilhas.

Como fomos em baixa temporada, havia mais pássaros no céu – lembro-me de ter visto duas fragatas e um gaviãozinho – do que turistas na areia. Aliás, isso nos foi providencial, pois de praia populosa queríamos distância!

Porque o mar estivesse polar, e as ondas, para poucos amigos, achamos por bemcaminhar. De primeiro, perto da água, enfrentando a areia movediça e fugindo das falanges de espuma.

Mas como as (minhas) barrigas das pernas já tremiam, sugeri que andássemos na parte alta da praia, pois a natureza formara um verdadeiro talude que separava o mar da areia mais firme.

Só que leváramos o frescobol…

Ora, por que fazer do jeito fácil, se o difícil é o que agrada mais às crianças? Assim, enquanto caminhávamos em direção à ponta da praia – onde encontraríamos um braço de rio que, por não desembocar no mar, formava uma convidativa piscina, íamos tentando acertar mais que duas vezes as raquetes na bolinha; eu, na parte de cima da praia, rindo a bom rir, e o filhão lá embaixo, esquivando-se das ondas.

Depois de curtir a praia, partíamos para o momento mais desagradável do dia:Relaxávamos na piscina aquecida até enrugar as pontas dos dedos. – E quando disse aquecida, não quis dizer climatizada. Era de queimar quando se entrava!

É claro que esse relaxamento por vezes não prescindia das caipirinhas, que eram preparadas com esmero, e muito menos das porções, fartas e deliciosas. Aliás, no segundo dia das férias, depois do que comemos à beira da piscina, ir almoçar no restaurante, só se fizéssemos como na Roma antiga!

Fora esse abusozinho, almoçávamos e jantávamos no restaurante, não só porque temos esse hábito, como, também, porque a comida era barata e de tirar o chapéu. A propósito, ao escrever estas linhas, já começo a salivar, pois me lembro perfeitamente do sabor e da textura da caldeirada que pedimos num jantar.

Não havia pernilongos nem borrachudos a nos incomodar nos quartos. Um repelente elétrico oferecido pela pousada e o ar condicionado de controle remoto nos permitiram dormir o sono dos justos. Chato, não?…

Fora do quarto, o repelente em creme bastava; até porque, à noite a temperatura caía.

Dois outros fatos merecem destaque nessa saudosa semana, ambos acontecidos à noite:

Quando assistíamos, deitados confortavelmente na cama, à final da 13ª temporada do America’s Got Talent, e torcíamos, nós três, pelo mágico Shin Lim, percebemos que uma forte chuva começara de repente.

Ora, irmos dormir embalados pelo barulho da chuva, depois de um dia inteiro de mar e piscina, é um verdadeiro deleite. E mais prazeroso o sono se tornaria porque o nosso candidato acabou ganhando a competição, o que lhe deu direito a se apresentar em Las Vegas, e a um prêmio de um milhão de dólares!

Pela madrugada, acordei com vontade de ir ao banheiro. Quando pus os pés no chão, procurando as sandálias, senti uma poça d’água. Deduzi, então, que a tempestade tinha sido tão forte que a chuva entrara por debaixo da porta.

Minha esposa acordou e, como eu, ficou surpresa. Daí que tratamos de colocar algumas toalhas usadas no chão, a fim de represar a água e evitar maiores estragos.

Ah! Não esqueci de ir ao banheiro.

No dia seguinte, avisamos à camareira antes de tomarmos o café da manhã, e perguntamos aos únicos dois casais que também estavam hospedados se seus quartos também tinham sido inundados.

Ambos estranharam, pois ninguém se lembrava de ter chovido. E isso nos deixou intrigados, uma vez que o barulho da água que desabava à nossa porta lembrava uma cachoeira.

Quando fomos perguntar à funcionária se o nosso quarto já estava seco, a divergência foi esclarecida. Na realidade, um cano arrebentara no apartamento de cima, e a água jorrou copiosa.

O segundo fato, não menos inusitado, foi que a nossa rainha quis porque quis ir passear à noite na praia, em que pesem o breu, a garoa, e a discordância dos seus súditos.

Mas como a voz melíflua sempre prepondera, lá fomos nós enfrentar o desconhecido…

Só que assim que saímos para a rua, notei que algumas coisas circunvoavam os postes de luz da praça. Eram três enormes morcegos!

Pois não é que aquela vontade inabalável de passear na praia simplesmente desapareceu?

Ó! Juréia… A par das muitas risadas, e com ou sem morcegos, não vemos a hora de retornar para os seus braços.

Dias Campos

diascampos1@gmail.com